Criando um jeito de criar

Uma das perguntas que sempre nos fazemos é sobre se existe algo próprio no processo criativo do circo, ou mesmo no nosso processo criativo enquanto grupo. Precisamos nos colocar em risco? Precisamos nos pendurar, tirar os pés do chão? Precisamos criar números?

A partir desses questionamentos, nos reunimos e levantamos alguns interesses em comum para identificar um método criativo que fosse nosso.

Se pensarmos o circo a partir das suas técnicas e procedimentos, podemos destacar a repetição como essencial à construção de um corpo circense. O circo exige um treinamento diário, de repetição cotidiana e convívio. A repetição envolve não só o movimento, como garante também a confiança e a segurança necessárias para lidarmos com o risco. Mas, ao fundo, essa repetição vai transformando pouco a pouco as relações e os indivíduos. Isso é circo. A burocracia da repetição aliada à entrega ao processo.

É como se construíssemos um circo na efemeridade do cotidiano criativo.

Apesar da importância que damos à sala de ensaio (e isso significa, para quem nos conhece, longos ensaios diários), sabemos que só isso não é suficiente sem a experiência compartilhada dos filmes que gostamos juntos, dos espetáculos que nos emocionaram e da nossa vivência em cima dos palcos e picadeiros. De alguma forma, criar é reunir pedaços da vida e criar juntos é uma maneira de colecionar momentos vividos em conjunto.  

O nosso circo tem a ver com essa experiência compartilhada. Nossa pista de relações. Nesse circo, as relações são familiares.  

Partimos do princípio que as relações em cena são construídas em ato, no contato entre os corpos. A experiência é, portanto, o principal elemento para a dramaturgia. Colocar os corpos em situação de relação nos dá resultados imediatos - estéticos, sensoriais, dramatúrgicos e coreográficos. Aqueles questionamentos, portanto, sobre a necessidade do risco e do corpo em suspensão ou sobre a característica dramatúrgica de sucessão de números permeiam constantemente as nossas criações, mas não são nossas fontes de inspiração, nem pontos de partida.

Partimos do treinamento extenuante, que obriga nossos corpos a se colocarem em estado de presença, ação e reação. O processo criativo traz esse corpo ativo e reativo como meio e fim cênico. O espetáculo também se constrói pelas capacidades e limites desse corpo.

O aprendizado é informal e a criação é intuitiva.

O ator atua

O dançarino dança

O circense circula

Como criamos? No coletivo Instrumento de Ver, o processo de criação é fonte de inspiração, como caminho e como fim. Nos perdemos em exercícios, cenas e emoções. As relações estabelecem os desafios e nos colocam sempre em conflito com nossas individualidades e com o outro. O resultado final é um guia, um lugar mais confortável onde os conflitos por hora se resolvem e onde alcançamos um estranho prazer, uma sensação de estarmos juntos, mesmo depois de um caminho de discordâncias e concordâncias tão intenso. Surge o então o público, esse elemento desconhecido que nos mete medo, mas que dá todo o sentido para o que antes parecia ser apenas uma loucura coletiva. Comunicamos algo que vai além do esperávamos, tocamos algumas pessoas com sutilezas que não havíamos nem percebido que estavam ali. O que nos impulsiona é a necessidade de criar, o que nos mantém vivos é a criação.

Julia Henning - Artista pesquisadora | coletivo Instrumento de Ver | Mestranda em Artes Cênicas na Universidade de Brasília

Maíra Moraes - Artista pesquisadora | coletivo Instrumento de Ver | Graduanda em licenciatura em Dança pelo Instituto Federal de Brasília

texto criado dentro do projeto de pesquisa Poéticas Circenses Contemporâneas patrocinado pelo Fundo de Apoio à Cultura da Secretaria de Cultura do Distrito Federal