Lembranças de um ensaio

Numerando os ensaios, ensaio n. 23. 

os ensaios são livres há muita intimidade o que é bom no aquecimento, no chamego, na concentração mas nos coloca em um lugar confortável. Falta o frio na barriga o nervo do desconhecido de não saber quem é o outro... Tem horas que precisamos nós reinventar ser outra coisa... 

Exercitar a passagem como um mantra que toca sem parar. Não tem frente nem verso, vem e vai, a emoção, a corda ou talvez você. Um beijo na boca talvez passe. Sendo assim vai e vem a gente se encontra. 

Ensaio n. 05.

Inverte o cuidado o pé transporta o pescoço endurece o coração aperta EU SOU A ALAVANCA no movimento cíclico segue em frente. Consiste em tirar da cabeça o desejo e deixa-lo guiar no pouco tempo e na vontade de começar a mexer-se. A composição é simples o que tiver ao seu alcance. A soma das coisas que te movem pra sair da inércia e seguir o impulso. Me faltam mecanismos o medo é grande mais eu sou mais. O medo grande mas nada me basta sigo movendo só tenho medo da inércia o resto é movimento. 

Ensaio 102. Sobre composições, criações e mal humor.

O mundo da criatividade não permite o mal humor. Não há lugar para uma pessoa incomodada e murmurenta. Esse mundo onde ser criativo é fantasioso, imaginário essa criatividade que virou negócio, produto da industria. Como não ficar mal humorada quando o seu ofício envolve muita criatividade e nenhum dinheiro? Sigo rabugenta, criativa e trabalhosa... Um abraços aos bem humorados. 

Ensaio n. 3 

Escrita livre. Escrever sem pensar a posição não é favorável o sentido das coisas a inversão dos sentimentos no fazer artístico complica o simples fazer artístico que não é artesanato e que não tem sentido claro  e que apenas complica as coisas para ressignificá-las mudar de lugar deixar ir levemente uma gota no papel suave e delicado... Resignificando e dessignificando segue sem rumo na direção alheia aos pensamentos com um leve toque de mal humor que é para dar personalidade não passar desapercebido... Aparecido... tive uma idéia! 

Ensaio n. 54 

Enfermaria. Um processo de limpeza todos estão incomodados, joelho, costas, cabeça. Para onde vamos? uma dúvida de como colaborar, de como não atrapalhar. Respeitar o espaço do outro e dar forma. Qual é a angustia? O maestro regente da as ordem e direciona. Uma pausa para pensar.

Ensaio n. 8 

Exploramos os objetos propostos na composição de queda. O Balão é ar, ele coloca a gente em um estado de alerta pois é difícil de prever a direção que ele vai escolher. Sopros e respiradas para movem o balão. O Galão é grande é aterrado é bonachão, ele pede força. O ritmo permite mais interação entre o corpo e o objeto. Pode subir nele, entrar, arremessar seu bom humor nos leva para outros caminhos. A tampa é sonora, faz um barulho quase bom de se ouvir. Ela se locomove pelo corpo e não precisa das mãos. Um pouco desconfiada ela não se entrega. Ela tem uma missão, um motivo de ser não é artista. 

Ensaio n.98

Amarração amorosa. O pagamento do material e da mão de obra da amarração amorosa somente após o resultado. Não está feliz?  Está sem sorte no amor? A pessoa que você ama está afastada?  O pai Dinho pode te ajudar! Temos 30 anos de experiência em trabalhos espirituais e amarrações amorosas. Todos os anos ajudamos milhares de pessoas a encontrar o caminho do amor e da felicidade. Fale com o Pai de Santo online ou por telefone.

A corda mais aguda das cordas é a que recebe o nome de MI (e). Presas no rastilho passam pela boca sempre em contato com os trastes até a mão. 

 

 

Carta ao antigo namorado

Oi,

pensava em você e o tempo que passou. Houve um tempo que conversávamos muito, éramos bons namorados, nossa paixão era visível a olhos nus. Hoje quase não te vejo. Sempre me assusto quando o nosso olhar se cruza, não sinto mais o embrulho na barriga e o desejo desesperado de estar com você. Ainda te amo. Agora nosso amor é nostálgico, delicado, calmo sem o calor da paixão. Você sabe que meu mundo é feito de paixão. Muitas vezes, no auge da nossa paixão, sonhava que estava a caminhar sem você no meio da multidão e o sonho se transformava em pesadelo. Quem me dera ter sua tranquilidade... Mas minha vida é curta e você vai me ver morrer.

Eu me pergunto se você algum dia foi apaixonado por mim tamanho é seu desapego.  Será que você lembra das longas caminhadas que fazíamos juntos? Será que você pensa no meu olhar apaixonado que derretia ao te ver? Sempre soube que você não era romântico. mas sua frieza e sua indiferença me magoam. Acho que fui eu a única que amou. Mas sei que você guarda marcado a lembrança da minha pele e do meu cheiro. Minha pisada firme foi determinante na sua vida e isso você não pode negar. 

O conforto do canto escuro do armário te dá esse ar de bem guardado que parece te fazer bem. Apesar da idade ter roubado o seu brilho e sua vivacidade você continua elegante e charmoso. 

Bem que podíamos sair pra passear um dia desses... Que tal um cinema? 

Sempre sua Maíra.

Carta para óculos

Querido Óculos,

escrevo esta carta para te dizer e expressar, pela primeira vez, o que realmente sinto por ti. Há muito tempo você está na minha vida e a nossa relação nem sempre foi das melhores, por isso preciso te dizer o quanto você é importante pra mim. 

Gosto de como você se encaixa no meu corpo, o seu jeito delicado de me vestir e me galantear, mas principalmente gosto do novo mundo que você me apresenta. Você faz tudo parecer mais bonito, sua sensatez permite que eu veja as coisas com mais clareza. Tenho que admitir que nesse mundo tão sem sentido tem horas que prefiro não ver nada. Mas sinto sua falta assim que você se afasta, aos pouco me acostumo com a ausência de brilho ao meu redor quando você não está. 

O que mais me encanta nessa nossa relação, é como você me conquista tão facilmente, tão sutilmente e, num piscar de olhos, já estou entregue. O casamento é algo que me dá medo, esse nosso eterno flerte, esse nosso namoro sem compromisso disfarça minha completa dependência em você. Prefiro que a gente continue assim. Basta um carinho seu e eu mergulho no seu olhar profundo e deixo você me guiar com a certeza que o seu olhar melhora o meu. 

Com amor 

Maíra. 

acordar coisa

acordar coisa não é como acordar inseto, é bem mais pragmático.

um dia você acorda com dores musculares, no outro acorda precisando ser lixado. polido. esfregado. 

um dia você acorda de mau humor, no outro acorda no lugar errado.

um dia com uma fome do cão, no outro acorda pronto.

se você falar comigo, posso parecer não escutar. ou não responder.

coisa não conversa.

posso ser mexido, arrumado, ser jogado. 

nos dias que acordo coisa, posso trabalhar bastante.

repetir, repetir, até ficar diferente.

nesses dias eu também me relaciono. 

se você não mudar minha trajetória, faço o que for preciso.

o que você precisar. 

nesses dias passo desapercebido.

recebo e ignoro seu afeto.

não me percebo.

não olho no espelho.

não penso em você. 

foto: joao saenger

Penumbra

No final de maio oferecemos uma série de oficinas com o objetivo de desenvolver a pesquisa Geringonça junto com outras pessoas. Essas oficinas resultaram na produção de vídeos. Penumbra I e II são os primeiros dessa série, no qual participam os alunos das oficinas de Pesquisa Acrobática, Composição Cênica e Vídeo Mobile em uma produção conjunta.

Nas oficinas de pesquisa acrobática e composição trabalhamos movimento e a relação com objetos. 

Na oficina de vídeo, os parceiros COMOVA deram ferramentas para a criação de vídeos com telefones móveis.

Confiram o resultado!

Participaram da criação das cenas: Bruna Dalbosco/ Bruna Nunes/ Bruna Pratesi/ Júlia Giesbrecht/ Matheus Sena/ Myka Dias/ Sarah Dornelles/ Nanci Cravinho/ Nayara Silva/ Renata Rinaldi/ Yllyusha Montezuma
 

Parecia dança

Tomou aquela menina, já um pouco imóvel nos braços, e a vestiu como a coisa mais linda ou necessária que poderia integrar seu corpo. Seu suor tomava aquele corpo de mulher, como a madeira banhada em verniz que se enche de brilho.

Parecia lindo... Parecia dança...

Meus olhos por alguns momentos, não sabiam mais a quem dar a importância do olhar. Na mulher que dançava como quem ama o vento, ou na criança de pouca mobilidade, que sutilmente remetia a imagem de um objeto de madeira. E na gota de suor que escorreu ali, quase despercebida do queixo da dançarina, me trouxe a sensação de que o toque da gota, de encontro com aquele ser envernizado, o faria mais vivo e gentil. Depois de percebido a importância dessa criança, a dançarina encontrava paz em sua movimentação, sentou se naquilo, como se sentasse num banco de descanso, que levemente buscava afeto. Talvez, de uma pequena lembrança do corpo e suor, que lhe trazia vida nas manhãs de sextas feira.

 

Foto de João Saenger

O artista de circo é um domador de objetos

As discussões sobre como o objeto se relaciona com o corpo suscitadas nos últimos ensaios me fez pensar em como o circo traz essa questão, tradicionalmente e de forma geral *.

 

A relação do artista de circo com seu aparelho remete-se, simbolicamente, às origens do circo moderno: o circo de cavalinhos. Nos treinos diários, o aparelho deve ser domado como um domador cuida de seu animal - a partir de seu próprio corpo, em um jogo dançado entre corpo e, aqui, no caso, o objeto.

 

O corpo se transforma no contato diário com o aparelho, feito de aço, cordas de algodão, ferro, madeira ou outros materiais até mais tecnológicos, mas não mais gentis. As dores sentidas nos primeiros contatos com o objeto vão diminuindo a partir da criação de um diálogo entre corpo e matéria. O objeto laceia, gasta, se flexibiliza a partir do contato com a pele e a pele se endurece, agarra, se adapta. Esse encaixe é preciso e delicado e faz parte de uma construção diária de treinos disciplinados e íntimos com o objeto. Qualquer mudança faria o aparelho parecer um estranho.

 

Essa fidelidade do artista ao seu objeto (que pode ser um trapézio, uma bengala, uma clave de malabarismo, uma cadeira, etc) tem uma forte relação com a segurança da performance. Essa relação pode ser entendida de forma racional - quanto mais íntima e diária é o contato do artista com o aparelho, menor as chances de erro, ou ainda, de forma simbólica - o objeto circense figura como o fio de separação entre a vida e a morte.

 

Essa intimidade diária com o fio da vida é o treinamento do artista circense. Um corpo moldado pela presença constante do risco. Um objeto selvagem dominado pelo artista domador. Nesse processo de docilização do aparelho não há espaço para táticas agressivas. A única possibilidade é a total entrega, fazendo com que a persistência, o toque diário do corpo no objeto transformem suas estruturas, desgastando-o, ou então, a precisão de ritmo, intensidade e trajetória da manipulação promova uma sincronia milimétrica entre o movimento do artista e o do objeto. Uma dança a dois.

 

Essa reflexão me evoca a imagem das grandes ou pequenas erosões naturais, de contato da água com as rochas, nas quais um movimento mínimo da água constrói paisagens raríssimas. Grandes ressacas do mar na encosta ou gotas singelas nas estalactites. Água mole em pedra dura tanto bate até que vira circo.

* Considerando aqui algumas das modalidades circenses, as que o aparelho circense é central é indispensável à própria performance. 

Referência

Maleval, Martine. O Objeto: O Nó Górdio em: O Circo no Risco da Arte. Wallon, Emannuel, 2009.